A sinceridade

Toda e qualquer sinceridade vale apenas aquilo que chega aos ouvidos do nosso interlocutor. Podemos vender aquela que é a maior verdade do mundo, aos nossos olhos, a quem quisermos. No entanto, quem nos ouve colocará um ponto de interrogação, em forma de nota mental, acabada a exposição de dogma tão convincente. É uma atitude saudável, a crítica, a dúvida. Direi mesmo que todos o deveriam fazer. Como se sabe, uma boa mente científica duvida sempre, até que se prove que não é mais necessário duvidar.
Não quero divagar acerca de qualquer atitude científica, nem tão pouco sobre o valor da verdade. Quero sim falar sobre a sinceridade. Uma qualidade imprescindível a qualquer ser humano honesto. É verdadeiramente interessante verificar que a sinceridade é, na maior parte dos casos, relativa. É possível ser-se sincero omitindo a verdade. Devo dizer que tal é muito confuso para quem acredita na verdade acima de qualquer preço, e se depara com pessoas que não sabem o que isso quer dizer. Meias verdades, palavras soltas e quando damos por nós não somos as pessoas sinceras que julgámos ser ao longo de uma vida.
Acontece muitas vezes tentarmos ser sinceros com alguém que não ouve exactamente o que dizemos e começa o “diz-que-disse”. A partir daí, a deturpação da tentativa de sinceridade é de tal ordem que julgamos ter contado uma mentira. Acontece também contarmos uma meia verdade porque achamos que quem nos ouve não é merecedor da verdade inteira, ou que a contará à sua maneira (criando a mentira) a outrem, colocando ainda mais em perigo a (meia) verdade que tentamos proteger. Nesses casos, o “diz-que-disse” cria uma história acerca de sítios que não conhecemos, ou acerca de coisas que não fizemos nem tão pouco dissemos.
É curioso constatar que, para se ser sincero nos dias que passam, o melhor é não falar. O silêncio pode ser mal interpretado, mas não é uma mentira.

22 de Agosto de 2005

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