domingo, setembro 18, 2005

Pais e Filhos no século XXI

Ser pai neste século de modernidade não é fácil. É acordar cedo para levar as crianças à escola, ir para o trabalho. Passar um dia inteiro a lutar contra a vontade de dar graxa ao chefe para subir na carreira, tratar mal os colegas porque roubaram a caneta que estava em tal sítio, posicionada de certa maneira, já de propósito para ver se alguém lhe mexia. À hora de almoço é ir ao restaurante mais apinhado para ver quem se senta e come primeiro. Depois de uma boa hora no trânsito, em que todos apitam sem razão aparente, apanham-se as crianças na escola. Ao chegar a casa, nem a mãe nem o pai têm vontade de fazer comida. Afinal de contas, tiveram um dia cheio e estão muito cansados. Fica decidido. Levam as crias ao McDonald’s. Uma opção bastante saudável, como sabe o cidadão comum.
Ser filho neste século em que a tecnologia ultrapassa os sonhos dos pais também não é fácil. É acordar cedo e comer pequeno almoço aquecido no microondas, porque a mãe decide poupar tempo todos os dias e fazê-lo de noite quando chega a casa. É aturar a figura paternal de cigarro na boca assim que acorda. É ir para a escola num carro em que todos gritam com todos porque o outro pisou o risco contínuo, e outra maluca (para não citar os palavrões que os paizinhos dizem) que ultrapassou pela direita. Quando se chega à escola, é aturar a professora que, de tão velha que está, nos confunde uns com os outros. Aquela cabeleira que a professora usa fica cada vez mais interessante, e é levar o dia inteiro a pensar que espécie de animal habita por baixo daqueles caracóis louros. À hora de almoço descarregam-se as frustrações em cima das empregadas e é vê-las a correr para a casa de banho lavadas em lágrimas, chamando a todos os anjinhos, “terroristas” e “criaturas enviadas pelo Demo”. À hora habitual, depois de mais de uma hora à espera do pai ou da mãe para poderem ir para casa, ver uma das novelas passadas na TVI (sem comentários…), chega uma mãe completamente enervada e com olheiras que chegam até aos joelhos. A ida para casa é muito semelhante à chegada à escola. Muitos gritos, muita berraria e muitos nomes mal criados. Ao chegar a casa é sentar no sofá à espera que um dos paizinhos se decida a começar a fazer o jantar. Depois de alguns berros, fica decidido. O jantar é no McDonald’s. O filho resigna-se, porque o Happy Meal tem sempre coisas giras para poder estragar.
A caminho do McDonald’s, ainda dentro do carro, começam as birras. O sono e a súbita lembrança que não está em casa a ver televisão fazem com que o filho desate a berrar por tudo e por nada. Ao chegar ao McDonald’s, a cena repete-se e mais de umas vinte vezes ao longo de várias ocasiões antes do regresso a casa. Porque a mãe decidiu ir ver as lojas. Afinal os centros comerciais são para isso mesmo, e se fecham tão tarde, há mais é que aproveitar. E hoje é sexta-feira, a criança não tem de se levantar cedo amanhã, nem os paizinhos.
Quem passa por esta família, e não tem filhos, fica abismado com a maneira como a criança abre a goela e deita cá para fora uma verdadeira potência sonora. É difícil estar a passear num centro comercial, de braço dado com a cara-metade, a tentar distrair a cabeça, quando um verdadeiro megafone berra porque a mãe não lhe dá colo.
Aqui fica um conselho para os pais deste século. Aproveitem as manhãs, antes de almoço para verem as lojas e passearem com as crianças. Aproveitem as noites e habituem a criança a ler, a escrever. Incentivem-nas a cultivar a imaginação de forma produtiva. Porque é extremamente cansativo ouvir não uma, não duas, mas pelo menos vinte crianças, numa sexta-feira à noite, a berrar porque estão cansadas e querem ir para casa ver sabe-se lá o quê na televisão.

18 de Setembro de 2005

sexta-feira, setembro 16, 2005

A crónica da ruiva

A ruiva é uma espécie em vias de extinção. São tão raras e tão poucas que, quando passa uma na rua, todos olham, e quando se conhece uma ruiva, não se fala de outra coisa. Depois da bela da loira (aquela espécie que tem toda a fama, embora só uma reduzida parte deve ter o proveito), deve ser a espécie feminina que mais olhares sequiosos conquista. E se fossem mais, perderiam a graça.
Não sei o que é que a cor do cabelo faz às pessoas, mas neste caso é também a cor da pele. São muito branquinhas, invariavelmente com sardas. Será que a razão da sua fogosidade está na cor do cabelo e na cor da pele? Isso justifica porque é que há tanta gente a pintar o cabelo de vermelho (que, entenda-se, não é ruivo). As aspirantes a ruivas são muitas. Mas nenhuma aspirante perde a cabeça quando lhe chamam “cenourinha” ou “laranjinha”. Porque, parece-me, que esta é a principal razão pela qual uma ruiva é fogosa. Tem de aprender desde cedo a defender-se contra as línguas maliciosas que teimam em apelidá-las de fruta ou vegetal. Não deve ser fácil.
A genética é caprichosa nestes aspectos. Ainda que atraente e de pele invejável, a ruiva é a espécie menos abundante neste mundo de mulheres cada vez mais insatisfeitas.

terça-feira, setembro 13, 2005

A crónica do homem de fio dental

No intervalo do jogo mais badalado da semana, entra um homem numa loja de lingerie, a mesma onde a esposa compra o afamado soutien redutor. Diga-se, em nome da verdade, que é a primeira vez que este homem entra na loja para comprar algo para ele. Está habituado a entrar nas lojas dos chineses, onde compra três pares de cuecas por 5€. Mira a menina que está na loja, depois de esta lhe perguntar se precisa de ajuda. Com um ar ridiculamente embaraçado, pergunta se a loja tem roupa interior de homem, que está posicionada mesmo em frente aos olhos vidrados do homem. Com umas cervejas a mais e um olhar de gozo, dirige-se ao fio dental e escolhe o tamanho mais pequeno. A menina, habituada aos homens que não conhecem o corpo que têm, faz questão de saber qual é o tamanho que este homem veste. Um XL, pensou ela assim que o viu entrar. Ao constatar o seu erro, o homem que entrou para comprar um fio dental ri-se a bandeiras despregadas. “Pensei que era tamanho único”, diz ele para parecer que percebe do assunto. Após pagar quase 12€ por uma peça de roupa interior que usará apenas para assustar a esposa, mete conversa com a menina, para se justificar. Porque ele é casado, não é dessas “bichonas” que por aí andam, e porque foi a esposa que insistiu, para terem uma segunda lua-de-mel. Os 7 filhos estão de férias em casa de uma das tias, lá para o Norte. “Há que aproveitar os momentos”, diz ele ainda a rir. A menina sorri, compreensiva, porque para cair o tabu do homem de fio dental, é preciso que nasça um José Castelo Branco com jeito de homem.

13 de Setembro de 2005

quinta-feira, setembro 08, 2005

Olhos de Jade - Parte I

As histórias esperam para ser contadas, da mesma forma que quem ama, anseia pelo beijo doce que provoca o sorriso pleno, ansiosa e calmamente. Todas as histórias têm um início, mesmo que este se tenha perdido com o decorrer dos anos e das vidas. Vidas que se entrelaçam e se enredam, impossibilitando a distinção entre o início de uma e o fim de outra. Talvez seja esta a razão pela qual se perdeu o início desta história.
Porque se supõe ter começado da mesma forma que todos os amores e todas as histórias começam, por acaso… Por obra de uma mão invisível que contorna as vidas e as transforma no inesperado.

O início desta história perde-se numa harpa, de arco dourado, com delicados detalhes. Uma melodia suave, cheia de harmonia, invade um salão, onde todos dançam. Numa festa de gala, para todos quantos possam aclamar-se importantes. A esta festa preside uma princesa, de longos cabelos negros, de olhos cor de jade. Com um longo sari verde-jade, bordado a ouro, e a pequenas pedras desta jóia. Todos invejam a beleza desta mulher-criança, que se apresenta como uma deusa perante o olhar dos homens mais importantes do país e arredores. Disputam a honra de serem os primeiros a tocar na sua mão delicada, de pele morena, cujos dedos estão rodeados por pequenos anéis com pedras preciosas, que bem ilustram a importância de quem os usa.
Esta bela mulher, prestes a tornar-se na rainha mais poderosa que o seu país viu nascer, e de seu nome Shiva, tem como destino amar um homem que dizem não estar ao seu nível, e ser desejada por um dos homens que mais inveja o seu trono. É difícil para esta quase-mulher não se recordar, numa altura festiva e de tanta alegria – o seu casamento –, de quem acaba de deixar o mundo dos vivos.

Seu pai, um Rajá imponente, preferia-a acima de todos os seus outros filhos, inclusivé os homens, que, por tradição, deveriam liderar após a sua morte. Além de ser a primogénita, era a mais bela, e a mais bondosa de todos eles. Shiva sentava-se, quando era ainda uma criança, no colo do Rajá e puxava-lhe as barbas brancas, pedindo por mais e mais histórias. O pai, carinhoso e sempre atencioso, contava-lhe as mais belas histórias vividas pelos seres magníficos que povoavam o palácio e os jardins.

Neste país onde o ar é mágico, todos os jardins têm crianças que se escondem por detrás das flores. Riem e brincam, num mundo só delas, onde não existem segredos e todas as pessoas se encantam com a beleza do que é simples, do que é divino.
O ar quente dos jardins do palácio esconde as belas criaturas que ali chegam para se deliciarem com a quietude e com a paz. A mãe dos filhos do Rajá refugia-se neste belo jardim, para conversar com todas as flores, árvores e seres encantados que ali chegam para repousarem. Shiva, escondida por baixo do sari da mãe, ouve todas estas conversas. Sonha com seres muito belos, em lugares ainda mais belos.

Shiva gosta de molhar os pés no lago dos jardins do palácio. Os cisnes que ali vivem cumprimentam-na sempre que ela se aproxima. Os seus longos cabelos tocam na água quando ela se senta à beira do lago para presentear os seus amigos com pedaços de fruta. Com o sari por cima dos joelhos, e os pés molhados na água, passa com a mão pela água brilhante observando o seu reflexo. Não é mais uma menina com os olhos brilhantes e cheios de alegria. Tem rugas em volta dos olhos cor de jade e o cabelo possui já um tom cinza. Os seus olhos, outrora cheios de vida e alegria, são agora plenos de tristeza, de amargura e dor. Shiva não gosta do que vê, mas a imagem persegue-a. Sacode com vigor a cabeça, afastando a imagem da sua velhice. No entanto, a recordação persegui-la-á e a solidão e amargura que viu reflectidas assombrá-la-ão durante muitos meses.
Não consegue esconder a sua ansiedade ao entrar de rompante num dos salões do palácio, interrompendo uma lição dos seus irmãos mais jovens. Todos a olham intrigados enquanto, apressada e ansiosamente, abre a outra porta, que dá para o quarto da sua mãe, para que esta lhe afague o cabelo e lhe prometa um futuro risonho, pleno de felicidade e de amor. Crê, esta doce criança, que passará os seus dias com o seu grande amor, um protegido do Rajá. Dizem os súbditos invejosos que este pé-rapado tem benesses a mais. Mas Shiva ama aqueles olhos negros, quase tão profundos como o sentimento que os une…Todas as suas tristezas e dores são apaziguadas na presença deste jovem que, sempre humilde, se desloca frequentemente aos aposentos dos filhos do Rajá para que lhes sejam tiradas as medidas para novos fatos de festa.

Numa manhã diferente de todas as outras (alguns anos antes do início desta história), Shiva, deitada na sua cama de lençóis suaves e delicados, sonha com outras gentes, outras vestes, outros costumes. Acorda sobressaltada com um par de olhos negros e brilhantes fixados nos seus cabelos. Um jovem que conseguiu penetrar no coração desta quase mulher, que partilha os seus segredos e as suas aventuras. É um jovem ainda, sem medo do que o espera no futuro. Sem ainda saber que o seu grande amor, está, à partida, perdido para outro homem amar. Sem saber que este mesmo amor, o amará da mesma forma até ao resto dos seus dias.
Shiva, ainda meio adormecida, crê ter acordado num sonho melhor do que os anteriores. Um beijo quente diz-lhe que não. Tudo está bem quando começa bem. Braços entrelaçados e bocas que se tocam é tudo quanto é necessário para que o dia seja pleno de alegria, para que nada corra mal. O futuro não é risonho para estes amantes, mas nada os assusta, nem nada os impede de projectar os mais belos sonhos para o seu futuro.
Os passos que se ouvem a chegar são suficientes para interromper o deleite de dois jovens amantes, que vivem o dia de hoje como se não mais houvesse amanhã.

sexta-feira, setembro 02, 2005

Ira & Izobel - Parte I

« - Mademmoiselle, Parlez vous français?
-Oui, Monsier. Qu’est ce que vous voulez ?
- Toi! »

A fome começava a pesar-lhe. Os seus esforços para escapar às multidões começavam a dar frutos. Como era difícil resistir às pessoas, ao seu sangue quente, à sua euforia!

Ao virar de uma esquina, um vestido vermelho chamou-lhe a atenção. As formas voluptuosas de um corpo de mulher enchem os seus olhos, os seus sentidos, e o pouco que ainda há de homem nele começa a enlouquecê-lo. Aproxima-se e sente o perfume deste anjo de cabelo de fogo. Caracóis perfeitos encobrem um pescoço alvo, caindo nas suas costas e ao tocar-lhes, ela vira-se. Olhos verde cor de mar invadem o seu pensamento e ele não consegue desviar o olhar da mulher que poderia ser a sua companheira na morte.
Ela disfarça um sorriso de reconhecimento, ele deduz que tanta beleza tem de pertencer à realeza de um qualquer país distante. Atormentado, cumprimenta-a, pegando na sua mão e depositando um delicado beijo, prenúncio de melhores momentos, na sua delicada pele branca. Ela cora. Talvez lhe tivesse lido o pensamento, talvez pertençam à mesma raça. Três frases são trocadas num espaço de tempo que parece demasiado pequeno. Ele afasta-se, olhando para trás e sorrindo, promessa de novos e mais demorados encontros.

É noite. As ruas escuras, o coração vazio. Uma imagem atormenta o que resta de uma alma. Um abraço quente, um sorriso de uma amante, daquela amante! Braços de seda, boca de veludo… Daria a eternidade para poder fazê-la sua.
Ao chegar a casa, uma mansão fria e muito velha, mas menos que ele, procura algum sossego, algo que o liberte daquele olhar vivo que, ao contrário do seu, ainda possui alguma esperança. As notas que desprende do seu piano, aliviam, momentaneamente, o desespero, o desejo que sente, que sentiu e sempre sentirá. A solidão aproxima-se e sussura-lhe ao ouvido… “The time has come!”
Após muitos séculos de amantes, amigos e inimigos, está na altura de pôr um fim o seu tormento e de encontrar, finalmente, alguém que o faça viver.

“You do bring out the best in me!”

Contigo aprendi a amar a luz das trevas. A escuridão não é fria… A morte é seda e as noites são de ouro. A eternidade sempre me parecera um fardo, um desejo pedido com travo de arrependimento. Depois de chegares, percebo que te esperava, com uma ansiedade que desconhecia.

Perdi-me no teu olhar azul de mar, no dia em que, silencioso, te aproximaste e me quiseste fazer tua. Reconheci-te. Reconheceria o olhar desesperado de quem foge ao seu destino, ao nosso destino, em qualquer parte. Durante muito tempo rejeitei a minha, a nossa raça. Até não mais conseguir resistir e perder-me no sangue quente, doce, dos vagabundos, das prostitutas e mesmo dos homens e mulheres que me desejaram. Nunca nenhum deles satisfez a minha solidão.
Mas tu chegaste… e, com o teu olhar de desespero e desejo conquistaste a minha alma, a minha solidão e o meu próprio desespero…

A última vez | The Last Time

Um dia destes, é tarde demais. Um dia destes, …acordamos com a cabeça branca, e arrependemo-nos de todos os minutos desperdiçados, ...