sexta-feira, setembro 02, 2005

Ira & Izobel - Parte I

« - Mademmoiselle, Parlez vous français?
-Oui, Monsier. Qu’est ce que vous voulez ?
- Toi! »

A fome começava a pesar-lhe. Os seus esforços para escapar às multidões começavam a dar frutos. Como era difícil resistir às pessoas, ao seu sangue quente, à sua euforia!

Ao virar de uma esquina, um vestido vermelho chamou-lhe a atenção. As formas voluptuosas de um corpo de mulher enchem os seus olhos, os seus sentidos, e o pouco que ainda há de homem nele começa a enlouquecê-lo. Aproxima-se e sente o perfume deste anjo de cabelo de fogo. Caracóis perfeitos encobrem um pescoço alvo, caindo nas suas costas e ao tocar-lhes, ela vira-se. Olhos verde cor de mar invadem o seu pensamento e ele não consegue desviar o olhar da mulher que poderia ser a sua companheira na morte.
Ela disfarça um sorriso de reconhecimento, ele deduz que tanta beleza tem de pertencer à realeza de um qualquer país distante. Atormentado, cumprimenta-a, pegando na sua mão e depositando um delicado beijo, prenúncio de melhores momentos, na sua delicada pele branca. Ela cora. Talvez lhe tivesse lido o pensamento, talvez pertençam à mesma raça. Três frases são trocadas num espaço de tempo que parece demasiado pequeno. Ele afasta-se, olhando para trás e sorrindo, promessa de novos e mais demorados encontros.

É noite. As ruas escuras, o coração vazio. Uma imagem atormenta o que resta de uma alma. Um abraço quente, um sorriso de uma amante, daquela amante! Braços de seda, boca de veludo… Daria a eternidade para poder fazê-la sua.
Ao chegar a casa, uma mansão fria e muito velha, mas menos que ele, procura algum sossego, algo que o liberte daquele olhar vivo que, ao contrário do seu, ainda possui alguma esperança. As notas que desprende do seu piano, aliviam, momentaneamente, o desespero, o desejo que sente, que sentiu e sempre sentirá. A solidão aproxima-se e sussura-lhe ao ouvido… “The time has come!”
Após muitos séculos de amantes, amigos e inimigos, está na altura de pôr um fim o seu tormento e de encontrar, finalmente, alguém que o faça viver.

“You do bring out the best in me!”

Contigo aprendi a amar a luz das trevas. A escuridão não é fria… A morte é seda e as noites são de ouro. A eternidade sempre me parecera um fardo, um desejo pedido com travo de arrependimento. Depois de chegares, percebo que te esperava, com uma ansiedade que desconhecia.

Perdi-me no teu olhar azul de mar, no dia em que, silencioso, te aproximaste e me quiseste fazer tua. Reconheci-te. Reconheceria o olhar desesperado de quem foge ao seu destino, ao nosso destino, em qualquer parte. Durante muito tempo rejeitei a minha, a nossa raça. Até não mais conseguir resistir e perder-me no sangue quente, doce, dos vagabundos, das prostitutas e mesmo dos homens e mulheres que me desejaram. Nunca nenhum deles satisfez a minha solidão.
Mas tu chegaste… e, com o teu olhar de desespero e desejo conquistaste a minha alma, a minha solidão e o meu próprio desespero…

2 comentários:

Leston Bandeira disse...

Já o tinha dito: é só começar e as estórias - que podem fazer história - aparecem. E esta tem tantas!...

marcia disse...

sabes as pessoas não se tornam especias pela maneira de ser ao agir, mas sim pela forma como atingem os nossos sentimentos.
tu es dakelas ke atinge de varias maneiras,pela amizade, pelo carinho e sobretudo pela arte de escrever.
lindo, lindo lindo
lagrima da lua

A última vez | The Last Time

Um dia destes, é tarde demais. Um dia destes, …acordamos com a cabeça branca, e arrependemo-nos de todos os minutos desperdiçados, ...