Olhos de Jade - Parte I

As histórias esperam para ser contadas, da mesma forma que quem ama, anseia pelo beijo doce que provoca o sorriso pleno, ansiosa e calmamente. Todas as histórias têm um início, mesmo que este se tenha perdido com o decorrer dos anos e das vidas. Vidas que se entrelaçam e se enredam, impossibilitando a distinção entre o início de uma e o fim de outra. Talvez seja esta a razão pela qual se perdeu o início desta história.
Porque se supõe ter começado da mesma forma que todos os amores e todas as histórias começam, por acaso… Por obra de uma mão invisível que contorna as vidas e as transforma no inesperado.

O início desta história perde-se numa harpa, de arco dourado, com delicados detalhes. Uma melodia suave, cheia de harmonia, invade um salão, onde todos dançam. Numa festa de gala, para todos quantos possam aclamar-se importantes. A esta festa preside uma princesa, de longos cabelos negros, de olhos cor de jade. Com um longo sari verde-jade, bordado a ouro, e a pequenas pedras desta jóia. Todos invejam a beleza desta mulher-criança, que se apresenta como uma deusa perante o olhar dos homens mais importantes do país e arredores. Disputam a honra de serem os primeiros a tocar na sua mão delicada, de pele morena, cujos dedos estão rodeados por pequenos anéis com pedras preciosas, que bem ilustram a importância de quem os usa.
Esta bela mulher, prestes a tornar-se na rainha mais poderosa que o seu país viu nascer, e de seu nome Shiva, tem como destino amar um homem que dizem não estar ao seu nível, e ser desejada por um dos homens que mais inveja o seu trono. É difícil para esta quase-mulher não se recordar, numa altura festiva e de tanta alegria – o seu casamento –, de quem acaba de deixar o mundo dos vivos.

Seu pai, um Rajá imponente, preferia-a acima de todos os seus outros filhos, inclusivé os homens, que, por tradição, deveriam liderar após a sua morte. Além de ser a primogénita, era a mais bela, e a mais bondosa de todos eles. Shiva sentava-se, quando era ainda uma criança, no colo do Rajá e puxava-lhe as barbas brancas, pedindo por mais e mais histórias. O pai, carinhoso e sempre atencioso, contava-lhe as mais belas histórias vividas pelos seres magníficos que povoavam o palácio e os jardins.

Neste país onde o ar é mágico, todos os jardins têm crianças que se escondem por detrás das flores. Riem e brincam, num mundo só delas, onde não existem segredos e todas as pessoas se encantam com a beleza do que é simples, do que é divino.
O ar quente dos jardins do palácio esconde as belas criaturas que ali chegam para se deliciarem com a quietude e com a paz. A mãe dos filhos do Rajá refugia-se neste belo jardim, para conversar com todas as flores, árvores e seres encantados que ali chegam para repousarem. Shiva, escondida por baixo do sari da mãe, ouve todas estas conversas. Sonha com seres muito belos, em lugares ainda mais belos.

Shiva gosta de molhar os pés no lago dos jardins do palácio. Os cisnes que ali vivem cumprimentam-na sempre que ela se aproxima. Os seus longos cabelos tocam na água quando ela se senta à beira do lago para presentear os seus amigos com pedaços de fruta. Com o sari por cima dos joelhos, e os pés molhados na água, passa com a mão pela água brilhante observando o seu reflexo. Não é mais uma menina com os olhos brilhantes e cheios de alegria. Tem rugas em volta dos olhos cor de jade e o cabelo possui já um tom cinza. Os seus olhos, outrora cheios de vida e alegria, são agora plenos de tristeza, de amargura e dor. Shiva não gosta do que vê, mas a imagem persegue-a. Sacode com vigor a cabeça, afastando a imagem da sua velhice. No entanto, a recordação persegui-la-á e a solidão e amargura que viu reflectidas assombrá-la-ão durante muitos meses.
Não consegue esconder a sua ansiedade ao entrar de rompante num dos salões do palácio, interrompendo uma lição dos seus irmãos mais jovens. Todos a olham intrigados enquanto, apressada e ansiosamente, abre a outra porta, que dá para o quarto da sua mãe, para que esta lhe afague o cabelo e lhe prometa um futuro risonho, pleno de felicidade e de amor. Crê, esta doce criança, que passará os seus dias com o seu grande amor, um protegido do Rajá. Dizem os súbditos invejosos que este pé-rapado tem benesses a mais. Mas Shiva ama aqueles olhos negros, quase tão profundos como o sentimento que os une…Todas as suas tristezas e dores são apaziguadas na presença deste jovem que, sempre humilde, se desloca frequentemente aos aposentos dos filhos do Rajá para que lhes sejam tiradas as medidas para novos fatos de festa.

Numa manhã diferente de todas as outras (alguns anos antes do início desta história), Shiva, deitada na sua cama de lençóis suaves e delicados, sonha com outras gentes, outras vestes, outros costumes. Acorda sobressaltada com um par de olhos negros e brilhantes fixados nos seus cabelos. Um jovem que conseguiu penetrar no coração desta quase mulher, que partilha os seus segredos e as suas aventuras. É um jovem ainda, sem medo do que o espera no futuro. Sem ainda saber que o seu grande amor, está, à partida, perdido para outro homem amar. Sem saber que este mesmo amor, o amará da mesma forma até ao resto dos seus dias.
Shiva, ainda meio adormecida, crê ter acordado num sonho melhor do que os anteriores. Um beijo quente diz-lhe que não. Tudo está bem quando começa bem. Braços entrelaçados e bocas que se tocam é tudo quanto é necessário para que o dia seja pleno de alegria, para que nada corra mal. O futuro não é risonho para estes amantes, mas nada os assusta, nem nada os impede de projectar os mais belos sonhos para o seu futuro.
Os passos que se ouvem a chegar são suficientes para interromper o deleite de dois jovens amantes, que vivem o dia de hoje como se não mais houvesse amanhã.

Comentários

MARCIA disse…
barbara!
Acho simplemente extraordinario, a maneira como escreves.
cada historia, tem uma história, basta seber interpreta-la.
sempre ke leio uma mais surpreendida fica.
****************
beijos lagrima da lua
Leston Bandeira disse…
A capacidade de fugir à realidade e inventar outros mundos é dada como um dom para dele fazer uso e propiciar aos outros o deleite e o usufruir.
Rita disse…
Quem me dera ter metade do dom para a escrita que tu tens. Beijinhos "cunhadita", Rita
Vitor Veronezzi disse…
De fato, muito interessante.
Não pretendo fazer crítica, mas você já leu sobre o Senhor Shiva do Hare Krishna? É bem interessante.
Seu dom para escrita é invejável.

Haribol!

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