Pais e Filhos no século XXI

Ser pai neste século de modernidade não é fácil. É acordar cedo para levar as crianças à escola, ir para o trabalho. Passar um dia inteiro a lutar contra a vontade de dar graxa ao chefe para subir na carreira, tratar mal os colegas porque roubaram a caneta que estava em tal sítio, posicionada de certa maneira, já de propósito para ver se alguém lhe mexia. À hora de almoço é ir ao restaurante mais apinhado para ver quem se senta e come primeiro. Depois de uma boa hora no trânsito, em que todos apitam sem razão aparente, apanham-se as crianças na escola. Ao chegar a casa, nem a mãe nem o pai têm vontade de fazer comida. Afinal de contas, tiveram um dia cheio e estão muito cansados. Fica decidido. Levam as crias ao McDonald’s. Uma opção bastante saudável, como sabe o cidadão comum.
Ser filho neste século em que a tecnologia ultrapassa os sonhos dos pais também não é fácil. É acordar cedo e comer pequeno almoço aquecido no microondas, porque a mãe decide poupar tempo todos os dias e fazê-lo de noite quando chega a casa. É aturar a figura paternal de cigarro na boca assim que acorda. É ir para a escola num carro em que todos gritam com todos porque o outro pisou o risco contínuo, e outra maluca (para não citar os palavrões que os paizinhos dizem) que ultrapassou pela direita. Quando se chega à escola, é aturar a professora que, de tão velha que está, nos confunde uns com os outros. Aquela cabeleira que a professora usa fica cada vez mais interessante, e é levar o dia inteiro a pensar que espécie de animal habita por baixo daqueles caracóis louros. À hora de almoço descarregam-se as frustrações em cima das empregadas e é vê-las a correr para a casa de banho lavadas em lágrimas, chamando a todos os anjinhos, “terroristas” e “criaturas enviadas pelo Demo”. À hora habitual, depois de mais de uma hora à espera do pai ou da mãe para poderem ir para casa, ver uma das novelas passadas na TVI (sem comentários…), chega uma mãe completamente enervada e com olheiras que chegam até aos joelhos. A ida para casa é muito semelhante à chegada à escola. Muitos gritos, muita berraria e muitos nomes mal criados. Ao chegar a casa é sentar no sofá à espera que um dos paizinhos se decida a começar a fazer o jantar. Depois de alguns berros, fica decidido. O jantar é no McDonald’s. O filho resigna-se, porque o Happy Meal tem sempre coisas giras para poder estragar.
A caminho do McDonald’s, ainda dentro do carro, começam as birras. O sono e a súbita lembrança que não está em casa a ver televisão fazem com que o filho desate a berrar por tudo e por nada. Ao chegar ao McDonald’s, a cena repete-se e mais de umas vinte vezes ao longo de várias ocasiões antes do regresso a casa. Porque a mãe decidiu ir ver as lojas. Afinal os centros comerciais são para isso mesmo, e se fecham tão tarde, há mais é que aproveitar. E hoje é sexta-feira, a criança não tem de se levantar cedo amanhã, nem os paizinhos.
Quem passa por esta família, e não tem filhos, fica abismado com a maneira como a criança abre a goela e deita cá para fora uma verdadeira potência sonora. É difícil estar a passear num centro comercial, de braço dado com a cara-metade, a tentar distrair a cabeça, quando um verdadeiro megafone berra porque a mãe não lhe dá colo.
Aqui fica um conselho para os pais deste século. Aproveitem as manhãs, antes de almoço para verem as lojas e passearem com as crianças. Aproveitem as noites e habituem a criança a ler, a escrever. Incentivem-nas a cultivar a imaginação de forma produtiva. Porque é extremamente cansativo ouvir não uma, não duas, mas pelo menos vinte crianças, numa sexta-feira à noite, a berrar porque estão cansadas e querem ir para casa ver sabe-se lá o quê na televisão.

18 de Setembro de 2005

Comentários

Leston Bandeira disse…
O retrato é perfeito e assustador. Há que inventar outras palavras para designar o que hoje se chama "pai", "mãe" e "filhos". E os próximos vão ser ainda piores
Friedrich disse…
Esses mesmo, é que eu não quero estar por perto, os próximos esses próximos vão ser muito piores se entretanto o homem não impludir o mundo antes! Os nossos filhos são umas jóias uns amores... Os dos outros é que são terríveis e malcriados, os nossos não! Retrato assustador mais por ser uma verdade... Será que a história se repete?

Beijos
http://ababushka.blogs.sapo.pt/
clark59 disse…
É lixado, não é? Eheheheh (não tenho filhos). E já agora qual é a dúvida? É claro que o Mundo urbano é uma merda! Pára de dizer (ainda que bem) trivialidades.
Estás bem?
Beijos

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