terça-feira, julho 11, 2006

O início

Em tempos longínquos, conheci um homem. Era tal a sua natureza e a sua graça que não precisava utilizar as palavras para se exprimir. Posso mesmo dizer que raramente ouvi o som melodioso da sua voz. Tê-lo-ei ouvido uma, duas vezes? Não sei precisar. Lembro-me, sim, do momento em que abriu a boca pela primeira vez e as palavras começaram a jorrar da sua boca. Qual mel, qual néctar encantado, enfeitiçou-me. Embalou-me na sua graça e leveza, transportou-me para mundos para lá do inimaginável. Fez-me corar de desejo. Não carnal, físico. Mas de desejo pelas delícias que a sua voz prometia. De ânsia pelos encantos que espreitavam da cortina de palavras.

Era esta a razão pela qual ele evitava falar. Não era necessário. A luz dos seus olhos era suficiente para transmitir conforto, amor, prazer, e, por vezes, dor, escárnio, desprezo. Tive o fortúnio de nunca merecer qualquer um destes olhares. Quando me olhava, envolvia-me em doçuras mil, em paraísos de flores e cheiros exóticos.

Lembro-me do dia em que o conheci. A sua reputação era bem conhecida, precedendo-o em qualquer lugar que fosse. Sabia que as suas palavras pareciam as de um anjo, que os seus olhos – e que olhos!, de um azul mar, que muda de cor de acordo com o tempo: verde em dia de tempestade, azul profundo em dia de sol – falavam de terras distantes da fantasia humana. Pedira hospedagem em minha casa. Recebera um pedido, muito cordial, de acordo com o exigido na altura, de abrigo. Acedi. Não havia razão para fazer o contrário. Se eu soubesse na altura o que esse pedido me traria… Tê-lo-ia aceite mil vezes, mesmo sabendo que consequências daí adviriam.

Chegou tarde, numa noite tempestuosa. Eu já dormia. Quando acordei já ele pintava as maravilhas do jardim principal. Era esse o seu ofício. Pintava. A luz que batia no seu cabelo quando o vi lembrou-me os caracóis louros de um pequeno querubim. Emolduravam uma face andrógina. Tinha a graça feminina, e o carisma que se quer num homem. Não me tinha ainda visto. Quando levantou os olhos, sem qualquer cerimónia, fitou-me directamente. Não era muito educado fazê-lo, assim, sem nos conhecermos, sem outras pessoas presentes. Quando o fez, senti-me desmaiar. Não caí, mas a minha alma desfaleceu de felicidade. Um reencontro comigo própria, com o mais profundo de mim… Senti todas as minhas ansiedades desvanecerem-se naquele mar profundo.

Antes do pedido de hospedagem, eu havia já pensado em mandá-lo chamar. Queria que pintasse o meu retrato. Era conhecido por deixar a sugestão de um suspiro preso na garganta de quem retratava. Todos quantos eram pintados, ganhavam uma dimensão etérea, irreal, que fazia com que ficássemos presos ao brilho dos seus olhos, a respiração tornava-se lenta e ofegante e teríamos a tentação de tocar na tela, para sentir a textura daquela pessoa tão feliz. Ele não pintava retratos tristes. Não o conseguia, não fazia parte da sua maneira de encarar o mundo. Eu queria ser pintada assim, preservando a beleza que sempre soube que tinha. Naquela altura, em que os pretendentes se alinhavam nos bailes para terem a honra de dançarem comigo, os meus cabelos ruivos tinham uma reputação invejável. Longos, até à cintura, sempre soltos e perfumados. Não tinha coragem de cortar os cachos, nem de lhes roubar a liberdade que adquiriram por direito próprio. Mesmo as mais severas tentativas de os domar haviam falhado. Era preferível ter a aparência de uma ninfa do que de uma louca. Todos nós nascemos com um dom, e o meu era o da escrita. Claro que a gaiola de ouro em que havia sido criada facilitava. Mas já começamos a divagar. Quero hoje falar do homem da voz de ouro, de mel, de todos os manjares de deuses e pedras preciosas. O homem a quem amei mais do que à minha vida. O homem que me fez esquecer todas as dores e todos os medos.

Diziam que os meus olhos verdes eram o reflexo da lagoa mais bela do nosso país. Que a minha pele parecia a de um bebé, as minhas mãos como as das ninfas. Sentia-me enfadada com todos estes elogios. Não havia a paixão arrebatadora que eu merecia. Até que aqueles olhos entraram na minha alma.

2 comentários:

Leston Bandeira disse...

Gosto desta tua capacidade (deste teu dom). Assim foges à realidade e vives o Mundo da Beleza, do Sonho, do Amor.Assim és a Bárbara, a Princesa dos Rios límpidos e cantantes em seixos risonhos, que refrescam canaviais e viajam até a mares reinventados, como se tivessem sido acabados de soprar pelo criador.

Berta Sampaio disse...

Gostei do que li, escreves muito bem! Mais uma poetisa, escritora escondida! Vais longe Bárbara... Eu acredito,no teu enorme talento.
Até já! VOu ler os teus contos e sentir o teu poema.
Um abraço.

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