A verdade

Não sei porque me lembro com tanta exactidão da noite, do momento, em que me deste um raio de luar. Quiseste levar-me a tocar na lua. E conseguiste. É uma lembrança que estava muito bem guardada nos recantos mais profundos de mim. Hoje assalta-me como uma necessidade. Noite após noite, cultivaste a minha necessidade, o meu anseio de ti. Levaste-me a acreditar que podia haver alguma verdade nas promessas que não fizeste. Depois de me teres descartaste-me.

Nunca percebi porquê. Até hoje. A tempestade que provocas na minha pele quando me tocas… Sei que sentes o mesmo. E tens medo. Medo de te entregares, medo de te desviares do teu caminho. O caminho que escolheste e que colide com o meu. Lutamos em lados opostos, mas a ânsia que a minha pele tem da tua, os meus lábios dos teus não desaparece.

É interessante lembrar as formas pelas quais me cativaste, como engoliste a minha inocência, como fizeste dela a tua arma contra o que viste ser maior que tu. Sei que és meu, mesmo contra a tua vontade. Por muito que me custe admitir, sou tua. És a fuga a um padrão que eu não vi.

A lua estava distante naquela noite. No entanto, consegui tocar-lhe. Depois de uma noite de carícias, toques furtivos, beijos roubados, deixaste que as nossas bocas se unissem num acto perfeito de entrega. Foi como se me roubassem o chão dos pés. As estrelas entraram nos meus olhos e o meu coração entregou-se, rendido.

Podemos amar muitas pessoas, e todas elas de forma diferente. Mas este amor é turbulento, doentio. Porque tu o quiseste. Dei-te o meu coração e mandaste-o embora. Sempre que me aproximei, afastaste-me. Sei porquê. São demasiadas as razões para que as consiga separar e pensar em cada uma de cada vez. Porque o medo se confunde com a frustração. Porque é um amor bonito demais para ser corrompido no teu caminho. Podíamos ter sido felizes. De todas que escolhes, falta-lhe sempre algo que eu tenho. De todos os que escolhi, nenhum me ofereceu a lua. E seremos assim, para sempre. Tão iguais e tão diferentes. E amar-te-ei sempre, tristemente. E tu querer-me-ás sempre, carregado de frustração, por não me poderes ter.

Já foi assim, noutros tempos, noutros sonhos, noutras vidas. Sempre igual e tão diferente. Este amor não é nunca consumado. Não fisicamente, porque nesses termos, conseguimos sempre enlouquecer-nos. Não me interessa por quantos corpos passaram as tuas mãos e a tua boca. Não quero saber. Sinto raiva quando insinuas os prazeres que dividiste com outras. Sei que acontece contigo o mesmo que acontece comigo. O coração acelera só de ouvir a respiração, os olhos brilham de antecipação. E as minhas mãos só querem ir de encontro a ti, a minha boca só quer saborear-te, morder-te, marcar-te.

A magia existe. Mesmo que os mais cépticos a neguem. Não é possível amar sem sentir a magia que nos rodeia. Faz com que a aparência seja mais suave, todos os defeitos desapareçam. O cabelo curto parece mais comprido, os olhos mais claros, tudo se modifica. Por magia.

Amar-te implica aceitar a magia. A boa e a má. Sem querer fazer parte da má. Renegando-a e expulsando-a deste amor que me faz ser tua.

Enquanto não tiveres a capacidade de me aceitar assim, com a verdade absoluta, sem qualquer tipo de disfarce, permaneceremos divididos, afastados, doridos.

Bárbara

24 de Julho de 2006

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