sábado, agosto 29, 2009

Demanda

À chegada, contempla... Cheira a neblina e pasma com a beleza. A promessa de respostas paira no ar, acompanhando a brisa fria.
O futuro é já ali... tangível. No entanto, o passado clama por ela, anseios por resolver.

A imagem do sonho. A primeira peça de um quebra-cabeças que atormenta e fascina, acalenta ansiedades e rouba esperanças.

Uma centelha acende-se no seu interior... Varre a paisagem com os olhos, até a sentir verdadeiramente.
As cores e os cheiros parecem saídos de um filme. De uma película a preto e branco, de quando ainda os deuses caminhavam na terra.
As memórias assaltam-lhe a mente, como que gritando "é já ali... só mais um pouco!"

E eis que entra no primeiro sítio que o coração reconhece. Envolto em névoa, este local parece quer contar-lhe segredos que há muito foram esquecidos. O seu interior quente e acolhedor sussura-lhe os fantasmas dos seus habitantes. "Que sensação de reconhecimento é esta?" pergunta-se, sentindo o coração quente.

Flores que cantam contos tristes, de donzelas perdidas de amor, de cavaleiros loucos de paixão, de reis e rainhas que amaram e odiaram, de camponeses cansados dos seus senhores, de senhores entediados. "Que lugar é este, que me aquece o coração?"

Em todas as ruas, procura. Há alguém que a espera no fim de uma subida, com uma flor na boca e um sorriso nos olhos.
Não é ainda esta... A neblina cerca os pensamentos, toldando-lhe os sentidos. A subida força a respiração e anula qualquer dúvida.
A lógica perdeu a razão neste reino de cheiros, sons e cores tão familiares que não saberá dizer de onde os conhece.
O coração comanda a demanda.
Na janela, uma sombra. Rápida, esquiva.
"Ainda não é aqui", sussura a voz de sempre. "Só mais um pouco, só mais um pouco..."

Tão idêntica a outras ruas, tão normal. No entanto... "é aqui... Vamos, chegámos!"
Sobe a rua, ansiosa, ofegante, deslumbrada pelo reconhecimento. Não sabe como, não sabe porquê, mas sabe que sim.
Ao virar daquela rua, no cimo daquelas escadas, aparecerão os olhos sorridentes que assombram os seus sonhos.

De repente, algo não está bem. Pergunta-se se terá enlouquecido... Como é possível?
"Não! Onde está ele? Porque é que o meu coração me pode ter enganado?" Sempre achou que no fim daquela rua, a grande espera da sua vida chegaria ao fim... Senta-se no degrau gasto pelo tempo, e chora... Lágrimas de desgosto profundo, de saudade, de amor não vivido. De desalento.

As imagens que cobrem os sonhos de sempre, as cores que lhe enchem as fantasias, os cheiros... Como? Porquê?
Cheira as flores, perde-se no branco. A pureza das suas recordações reflectida em pétalas brancas, que ora brilham, ora esmorecem…

Desorientado, perdido, o coração de sempre estava enganado. Não era aqui. A cara familiar está noutro local. De novo, a centelha acende, a esperança reaparece.
Muito tempo já passou… “Procuremos com mais atenção.”


De olhos atentos, e coração apaziguado, procura de novo. Olha o topo das ruas e procura…
Até que aquela visão a preenche. Cai no chão, de lágrimas nos olhos, de coração pleno… “Casa, chegámos a casa!”
Os olhos que prometiam o mundo de sorrisos não estão lá. A neblina esconde segredos que as almas mais antigas não querem mostrar.
Mas para lá daquela porta ("aquela, ali, já ali, não a vês?"), o mundo brilha com a intensidade de ontem, a flor presa nos lábios canta-lhe ao ouvido, mostrando o amanhã que nunca será como hoje.

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