sábado, agosto 07, 2010

Era o seu hábito mais antigo, desde que ali chegara. Sentar-se no alpendre, com uma chávena de café, a olhar para o horizonte. Perdia-se na imensidão das colinas, a sonhar com o que estaria para lá do pôr-do-sol. Quer chovesse quer fizesse sol, ela estaria ali, a sonhar. Levava uma vida simples e feliz. A sua gata branca, de pêlo macio acompanhava-a nesta rotina. Em dias frios, saltava para o seu colo, reclamando o seu lugar. Em dias quentes, estendia-se aos seus pés e olhava languidamente. Talvez partilhasse os sonhos da sua dona.

Tinha um rosto bronzeado, resultado de dias passados ao sol. O chapéu de palha que usava para se proteger estava gasto. Não se preocupava com a aparência, apesar de ter um rosto que derreteria o mais frio bloco de gelo. O cabelo tinha várias tonalidades. O cabelo tinha várias tonalidades, do castanho dourado ao louro curtido pelo sol. As mãos calejadas revelavam horas de trabalho no jardim. As flores enchiam os sentidos. Uma variedade de cores assaltava os olhos de quem chegava. Quem fosse novo por aquelas paragens perdia-se na imensidão de cores e cheiros. Mas ela sabia o nome de cada flor, dedicava-lhes o seu amor. Porque ainda esperava. Por isso se sentava no alpendre. À espera. Quando o sol se punha, recolhia-se. Mesmo nos dias de chuva, à hora do pôr do sol, ela ali ficava, com o café fumegante e a gata no seu colo. Todos sabiam que não era a altura ideal para visitas. Ela não ouviria nada, não diria nada. Apenas olhava. E esperava.

Depois de tanto tempo preocupada com o que os outros pensavam de si, agora apenas se preocupava com o seu bem-estar, com a sua paz interior. Que estaria completa, quando a espera terminasse.

E com o tempo vem o medo... O medo de crescer, da dor, da rejeição, de não ser o suficiente.
A despreocupação de criança é lentamente sufocada com as observações, as reacções.
O vento no cabelo não é apenas liberdade... Desfigura, preocupa.
A alegria de viver fica manchada com a desilusão.
Porque dói desiludir, porque não se pretende repetir.

Com o medo vem a distância. Uma barreira invisível que sufoca o medo. É mais seguro assim.
Não há desilusões, nem preocupações.

Com a distância vem o hábito... E a solidão. Porque afastar é mais fácil que ceder. Que dar o benefício da dúvida. Nem tão pouco é opção permitir a aproximação.

A última vez | The Last Time

Um dia destes, é tarde demais. Um dia destes, …acordamos com a cabeça branca, e arrependemo-nos de todos os minutos desperdiçados, ...