Era o seu hábito mais antigo, desde que ali chegara. Sentar-se no alpendre, com uma chávena de café, a olhar para o horizonte. Perdia-se na imensidão das colinas, a sonhar com o que estaria para lá do pôr-do-sol. Quer chovesse quer fizesse sol, ela estaria ali, a sonhar. Levava uma vida simples e feliz. A sua gata branca, de pêlo macio acompanhava-a nesta rotina. Em dias frios, saltava para o seu colo, reclamando o seu lugar. Em dias quentes, estendia-se aos seus pés e olhava languidamente. Talvez partilhasse os sonhos da sua dona.

Tinha um rosto bronzeado, resultado de dias passados ao sol. O chapéu de palha que usava para se proteger estava gasto. Não se preocupava com a aparência, apesar de ter um rosto que derreteria o mais frio bloco de gelo. O cabelo tinha várias tonalidades. O cabelo tinha várias tonalidades, do castanho dourado ao louro curtido pelo sol. As mãos calejadas revelavam horas de trabalho no jardim. As flores enchiam os sentidos. Uma variedade de cores assaltava os olhos de quem chegava. Quem fosse novo por aquelas paragens perdia-se na imensidão de cores e cheiros. Mas ela sabia o nome de cada flor, dedicava-lhes o seu amor. Porque ainda esperava. Por isso se sentava no alpendre. À espera. Quando o sol se punha, recolhia-se. Mesmo nos dias de chuva, à hora do pôr do sol, ela ali ficava, com o café fumegante e a gata no seu colo. Todos sabiam que não era a altura ideal para visitas. Ela não ouviria nada, não diria nada. Apenas olhava. E esperava.

Depois de tanto tempo preocupada com o que os outros pensavam de si, agora apenas se preocupava com o seu bem-estar, com a sua paz interior. Que estaria completa, quando a espera terminasse.

Comentários

José Pedro disse…
E vem-te assim de repente ou vais escrevendo num caderninho?! :P

Beijo

Zé pedro
Pandora disse…
;)
Este veio de repente.. outros escrevo num caderninho.
Leston Bandeira disse…
Nem de repente, nem num caderninho. O dom da escrita é como que uma marca com que se nasce. E tu, Bárbara, tens esse sinal em ti, no que escreves, no que sonhas, na generosidade com que te partilhas e te escondes. O que tens aqui neste texto, com o noutros espalhados por este blog é o retrato de uma alma que vai precisar de mais altos voos e mais tempo para se revelar neste tempo em que já pouca gente repara na beleza das palavras, na profundeza dos pensamentos...
Pandora disse…
És lindo meu pai ;)
E que bom seria se todos pudessem olhar para dentro das almas dos outros, e entender, assim, como tu entendes...

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