São dias atrás de dias. Que viram semanas e meses. Passam céleres, demorados. Quando se quer que demorem voam; quando se quer que passem a correr, fazem-nos passar horas a olhar para um relógio.

Diria que tem vida própria, o tempo. Faz de nós o que quer. Um dia acordamos e temos a cabeça cheia de cabelos brancos e recordações difusas. As boas, essas, foram encaixotadas e arrumadas num sótão onde se procura não entrar, correndo o risco de partir de novo o coração e ver os dias arrastarem-se por mais um século. As más, as recordações, cravam rugas e marcas num rosto amargo. Ficam e alimentam a sede de atravessar mais um dia, uma semana, um mês. O rancor nasce, o sorriso fica mais difícil.

Um dia, num belo pôr-do-sol, contemplamos a nossa existência e não conseguimos recordar os motivos pelos quais sorrimos e responsáveis pelas linhas de expressão marcadas no rosto. Nesse dia, o somar de tanto tempo e experiência percebemos. Não sabemos bem o quê, mas percebemos, finalmente. E suspiramos, respiramos bem fundo e fechamos os olhos.
As expressões endurecidas pelas memórias aliviam. E chega a leveza.

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